O Papa, o terço e Lula: para o jornalismo, o que menos importa são os fatos

20/06/2018
Reprodução O Papa, o terço e Lula: para o jornalismo, o que menos importa são os fatos Jean Grabois, que foi impedido pela Polícia Federal de entregar a Lula, terço abençoado pelo Papa Francisco

No dia 11 de junho, começou a circular nas redes do PT ou identificadas genericamente à esquerda, e também em vários sites jornalísticos, a notícia de que o papa havia enviado um terço a Lula, e que seu emissário, o advogado Juan Grabois, tinha sido impedido de entregá-lo pessoalmente. Tanto a Lupa quanto a Aos Fatos foram “checar” a informação e rapidamente lhe pregaram o selo de “FALSO”, baseando-se numa primeira nota do site VaticanNews, que depois, entretanto, seria retificada. As duas agências atualizaram a informação, mas Aos Fatos e, num primeiro momento, também a Lupa mantiveram o selo. No dia 13, depois que Grabois publicou uma carta no Facebook dando a sua versão do ocorrido, a Lupa mudaria o selo para “DE OLHO” e acrescentaria um texto explicativo com uma placa de “ATENÇÃO”.

Nesse meio tempo, porém, o jornalista Renato Rovai, editor da Forum, anunciou que a página da sua revista no Facebook havia sido notificada de que “estava sendo punida e poderia ser suspensa por ter espalhado maliciosamente fake news”, e que outros dois sites de esquerda, o DCM e o 247, sofreram a mesma ameaça. Isso pôs em pauta as consequências desse trabalho de checagem, considerando que ele é feito nessa “parceria” com o Facebook: seria, segundo Rovai, uma forma de censura, seja pela hipótese de suspensão das publicações ou da redução de seu alcance. Em outro artigo, publicado dia 14, o editor relaciona os problemas envolvidos nesse episódio, destacando a necessidade de manutenção de um “pacto mínimo entre veículos de qualquer viés ideológico em defesa da liberdade de imprensa”.

Pois a questão de fundo, como sempre, é a do viés ideológico, ainda mais grave quando não reconhecido, porque nesse caso fica oculto. Afinal, para as duas agências, tudo o que importa nesse caso é se a frase “Papa envia terço a Lula” é verdadeira. Certamente a notícia serviu na guerra ideológica – hoje, eufemisticamente, chamada de “disputa de narrativas” – que se trava hoje no país em torno da figura do ex-presidente e de seu papel na campanha eleitoral. É do interesse do PT afirmar que o terço foi um presente do papa, mas a confirmação disso não é simples como poderia parecer a princípio.

Ao alterar seu selo de “falso” para “de olho” – a etiqueta relativa a informações que ainda estão sendo acompanhadas –, a Lupa informou que estava aguardando “um esclarecimento oficial e definitivo” do Vaticano “sobre o desejo do Pontífice em dar um terço ao ex-presidente”.

Talvez os checadores ignorem os meandros da política e da diplomacia, em especial quando envolvem a mais alta autoridade da Igreja Católica. Talvez porque estejam acostumados – treinados? adestrados? – a dar vereditos definitivos e, pior, imediatos, como se tornou hábito entre jornalistas.

Afinal, como lembrou Hugo Souza num dos textos que publicou sobre esse tema, seria facilmente checável que o mesmo terço entregue a Lula foi enviado recentemente pelo papa a dois notórios presos políticos na América Latina. E que “tantos outros episódios envolvendo o ‘carismático’, o ‘revolucionário’ Francisco – como o ‘Deus te fez assim e te ama’ dito a um homem gay” renderam “tantas páginas de jornal e horas de telejornal no Brasil e no mundo”, sem jamais terem sido claramente confirmados pelo Vaticano nem, tampouco, negados.

Em seu último artigo sobre esse caso, Hugo demonstra exemplarmente a complexidade do trabalho jornalístico, expressão das contradições, ambiguidades e incertezas da própria vida, e por isso a impossibilidade de um verdadeiro trabalho de checagem limitar-se à simplificação classificatória dos “selos”:

“Não é difícil supor que, à luz de tudo disso, à pergunta ‘Papa enviou terço a Lula?’ aparecerão as respostas mais ao gosto dessa ou daquela visão política, dessa ou daquela visão do Brasil, até desse ou daquele ódio, e nem por isso terão que virar questões de ‘verdadeiro ou falso’, como nos testes da escola primária. Isso porque a realidade, a própria vida que se faz, é uma ambígua incorrigível, cheia de nuances, dada a interpretações, passível de argumentos, crivada de contradições, tantas que nem mil e uma etiquetas de checagem serão um dia capazes de abarcar, muito menos resolver — como as contradições no seio do Vaticano. A não ser quando se trata de desmentir boatos sobre doações de filhotes de labrador.

“Assim, as agências de fact checking, também elas, veem-se agora, ou melhor, mais que nunca, em dificuldades com uma questão fundamental do jornalismo, a credibilidade, porque, afinal, é precisamente o mais elementar em matéria de jornalismo o que elas se propõem a fazer, e reivindicando o suprassumo da excelência: o trabalho de checagem. Pois, no fim das contas, o que está sempre em jogo, com lupa, com pena ou microfone na mão, em matéria de jornalismo, é a ética, a responsabilidade, o compromisso com o direito das pessoas do nosso tempo à informação fidedigna, o que significa ter sempre em vista, em vez de tentar expurgar, aquelas mais de mil e uma contradições”.

Seria o caso de recordar uma famosa e premiada propaganda institucional do jornal Folha de S. Paulo, lançada em 1987, na qual o locutor em off vai relacionando uma série de feitos de um líder político, todos muito positivos, sobre uma imagem reticulada e indefinida, até que, ao final do texto, o foco se fecha subitamente e exibe o rosto de Hitler. Então, o locutor diz: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”.

É exatamente isso: tomadas isoladamente, todas aquelas frases mereceriam o selo de “verdadeiro”, caso fossem “checadas” pelos métodos utilizados por essas agências. Vistas em conjunto com o que não foi dito, apreendidas em seu contexto histórico, o resultado seria o oposto. Precisamente porque, para o jornalismo, o que menos importa são os fatos.

A autora é Sylvia Debossan Moretzsohn, jornalista, professora aposentada da UFF, pesquisadora do objETHOS.

 

Leia aqui íntegra do artigo publicado no portal Observatório da Imprensa