Indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada é "cara de pau, imoral e perigosa, diz Bebianno à BBC

06/08/2019
Reprodução Internet Indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada é "cara de pau, imoral e perigosa, diz Bebianno à BBC

Um ano depois de fazer uma declaração pública de amor "hétero" ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL-RJ), durante a convenção que sacramentou a candidatura do capitão, o ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno acusa o presidente de ser "cara de pau" em sua decisão de indicar o filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para chefiar a Embaixada do Brasil nos EUA.

"Eduardo, coitado, ele não tem a menor condição. Ele sequer sabe o papel de um embaixador. Ele não tem ideia. Eu convivi de perto com o Eduardo, ele não tem noções básicas de negociação, é um garoto, um menino, um surfista que teve um mandato por causa do pai, depois surfou de novo a onda do pai, na conquista do segundo mandato, mas é um rapaz completamente inexperiente. O nível acadêmico dele é bem iniciante, ele não tem condições", diz Bebianno.

Demitido por Bolsonaro em fevereiro, Bebianno vive seus últimos dias de quarentena do cargo público e pretende voltar a advogar em breve. Esse, no entanto, não é seu plano de longo prazo. Bebianno flerta com a possibilidade de se lançar candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020. Ele afirma ter tido convites para integrar diversos partidos, mas não revela quais.

"Há conversas em curso, mas eu tenho muito cuidado porque eu tinha abraçado com muita veemência a bandeira (Bolsonaro) na última eleição. Não me sinto hoje confortável pra me vincular a ninguém", diz.

Seu esforço maior tem sido o de se desvencilhar das ligações com Bolsonaro e das acusações de corrupção que surgiram após a eleição. Em fevereiro, a Polícia Federal abriu investigação para apurar possíveis desvios de dinheiro do fundo eleitoral e partidário.

De acordo com as denúncias, o PSL teria lançado candidaturas-laranja de mulheres em diversos estados, atribuído valores altos de repasses a essas pessoas a título de custeio de campanha, sem que elas tivessem de fato feito campanha. Como Bebianno era o presidente do partido, cabia a ele direcionar os recursos.

Bebianno nega qualquer irregularidade e diz ter liberado recursos de acordo com o pedido dos dirigentes estaduais do partido. Admite apenas que era um "faz tudo" da campanha de Bolsonaro. Além disso, afirma que só assumiu a presidência da sigla porque ninguém mais no entorno do então candidato se habilitou a fazê-lo.

"Me desliguei do PSL, renunciei ao cargo de vice-presidente e me desfiliei, não tenho vínculo nenhum com o PSL", diz.

A demissão de Bebianno aconteceu em meio à denúncia de corrupção, que desaguou em uma desavença pública com Carlos, um dos filhos do presidente. Carlos acusou Bebianno de ter mentido ao dizer que havia conversado com Bolsonaro a respeito da crise dos laranjas do PSL.

O presidente endossou o filho. Áudios divulgados pela revista Veja comprovam que diálogos entre o presidente e Bebianno existiram. Bebianno acabou demitido.

"O que eu observo é isso, várias pessoas, puxa-sacos, que não fizeram nada ou fizeram muito pouco ao longo da campanha, tomaram conta ali e hoje o presidente é cercado por essas pessoas. O rei não tem quem lhe avise que ele está quase nu. Acho muito ruim para o presidente, ele não está lá para roubar, não é um objetivo dele, mas deixou-se seduzir pelo poder, tanto assim que a promessa de campanha de não buscar a reeleição, ele já até antecipou a campanha de 2022", diz Bebianno, que não poupa críticas à atual gestão, que ele passou ao menos dois anos dedicado a promover.

"Deveria haver muito mais conversa (entre os grupos da direita), você tem lideranças importantes como o Flávio Rocha, o próprio (João) Doria, todos se afastando. Ninguém mais quer muita conversa (com Bolsonaro), por conta de posições muito radicais. Então, era um erro o Brasil do PT e acho que hoje a gente começa a ver um erro do Brasil bolsonarista", diz.

A seguir os principais trechos da entrevista.

 

BBC News Brasil - Como vê esses ataques do presidente Jair Bolsonaro ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz?

Gustavo Bebianno - Sob o ponto de vista institucional, olhando-se para a cadeira presidencial, considerando o peso e a importância que qualquer declaração do presidente tem, eu não esperava, não. Mas, levando em consideração o lado pessoal, a personalidade do presidente e às vezes o pensamento um tanto quanto confuso diante de certas questões, eu esperava, sim.

Na verdade, olhando pelo lado pessoal, era até previsível. O que eu imaginava é que ele fosse acabar absorvendo e se conscientizando do peso da cadeira e da palavra dele, e que fosse observar com um pouco mais de atenção a liturgia que o cargo exige e se abster de certos comentários que certamente vão ter um eco muito negativo.

BBC News Brasil - Mas na verdade esses últimos 15 dias do presidente mostram que ele tende ao comportamento contrário ao que você previu. Ele também falou de dar 'filé mignon' para o Eduardo, negou que haja fome no Brasil, atacou o diretor do Inpe, negou a tortura sofrida por Miriam Leitão.

Bebianno - A vida política dele é alimentada por isso. Ele teve uma carreira solo durante quase 30 anos. Nunca estabeleceu vínculos partidários, nem nunca se preocupou em fazer uma política com realizações. Nunca participou de nenhuma comissão importante, nunca presidiu nenhuma comissão importante, não teve projetos muito relevantes como deputado e ele aprendeu a marcar o nome dele, manter o nome dele vivo na política com esse tipo de embate.

Só que agora a função é completamente diferente, ele tem uma função executiva que exige dele uma equipe, formação de equipe, confiança por parte da equipe, exige dele uma série de componentes. Da forma como ele vem fazendo, me parece que ele desenvolve uma gestão muito mais pela intimidação, ou seja, as pessoas ao redor dele trabalham intimidadas, portanto, não tem espontaneidade nem sinceridade pra falar o que precisa falar pra ele, então eu acho que ele pode errar na dose e isso pode custar pra ele um preço bastante alto.

Ele aposta que vai manter viva essa popularidade ao longo de três anos e meio, está acostumado a bater nos outros, como pode manter essa posição sendo que hoje ele é a vidraça? Então, ele tem muita sorte porque o Paulo Guedes desceu de paraquedas nesse projeto dele. Paulo Guedes não foi uma pessoa que foi capturada por ele, não foi uma escolha dele 'eu quero alguém com o perfil do Paulo Guedes, então eu vou procurar' ou 'eu quero o Paulo Guedes'. Não foi isso o que aconteceu.

O que aconteceu é que, até por falta de opção, o Paulo Guedes foi o nome que apareceu. Ele percebeu num dado momento que o nome do Paulo Guedes respaldava a candidatura dele perante um eleitorado que ele não teria, só teve porque o Paulo Guedes estava engajado na campanha. Se o paulo Guedes tivesse se desvinculado da campanha, provavelmente ele não teria ganhado a eleição.

Então, hoje, eu enxergo que há dois governos. Existe um governo do Paulo Guedes, que tenta realizar, e existe o governo do Jair Bolsonaro, que é isso aí que a gente vai ver até o final, esses embates, essas coisas, que enquanto parlamentar ele sobreviveu e ascendeu com essa estratégia. No Executivo, me parece que essa estratégia por si só não vai ser vitoriosa. Ele depende fundamentalmente do Paulo Guedes pra realizar, sem o Paulo Guedes ele não vai realizar nada.

 

BBC News Brasil - Qual é o papel do ministro Sergio Moro?

Bebianno - O Moro caiu numa armadilha do destino. Eu no lugar dele teria um enorme arrependimento de ter abandonado a minha carreira de magistrado. Agora ele tem três caminhos: ou vai ser indicado para o Supremo, que era uma coisa dada como certa que já não é mais, ou ele se lança na política, ou ele vai viver de dar palestras.

Ele jogou fora uma carreira acreditando em um projeto que já não sei se ele acredita mais. Olhando de fora acho que ele não acredita, mas se mantém ali porque caiu nessa armadilha. Não tem muito o que fazer, porque para a vaga no Supremo ele depende do Presidente, então não pode romper com o presidente. Para carreira política é algo muito incerto e distante, e dar palestras acho que seria a última escolha dele. O que resta é ele ir levando.

BBC News Brasil - Os filhos de Bolsonaro não eram tão presentes no cotidiano da campanha, mas são bastante atuantes no governo. Como vê isso?

Bebianno - Eles nunca participaram de nada na campanha. Há uma parcela minoritária do eleitorado que é radicalíssima, o presidente pode fazer o que ele quiser que esse pessoal permanece. São como os eleitores do Lula, a mesma coisa só que com o sinal trocado. Essa pequena parcela, estamos falando de 18% a 20% do eleitorado, no máximo, está de um lado. Do outro lado você tem 20% do PT. E no meio você tem a grande massa, que são eleitores e não torcedores.

Uma coisa é ser torcedor fanático, outra coisa é ser um eleitor racional, que quer o melhor para o seu país. Então, a minha opinião é a mesma dessa maioria, do centro, de pessoas que olham com perplexidade esse nível de favorecimento e até de cara de pau, eu diria, porque o Eduardo, coitado, ele não tem a menor condição. Ele sequer saber o papel de um embaixador. Ele não tem ideia. Eu convivi de perto com o Eduardo, ele não tem noções básicas de negociação, é um garoto, um menino, um surfista que teve um mandato por causa do pai, depois surfou de novo a onda do pai, na conquista do segundo mandato, mas é um rapaz completamente inexperiente. O nível acadêmico dele é bem iniciante, ele não tem condições. Então, é um equívoco monstruoso.

Primeiro, eu acho imoral essa indicação. Segundo, ela é péssima. Péssima e antiestratégica para o presidente. O presidente não está adotando uma postura de um estadista que tem que saber lidar com situações de dificuldade. Uma situação de dificuldade clássica é a negociação com outros países, os Estados Unidos são muito mais poderosos do que o Brasil, e as relações entre os dois países, e tenho admiração enorme aos Estados Unidos, são um exemplo de nação, mas cada país olha pro seu interesse.

À medida que o presidente coloca o filho dele à frente desse tipo de papel, quaisquer problemas entre Brasil e Estados Unidos, uma simples disputa perante a OMC, por exemplo, qualquer desavença vai cair direto no colo do presidente, o presidente vai tornar pessoais problemas que não teriam essa configuração.

O Brasil perde com essa indicação. O presidente tem na cabeça dele uma visão até meio parecida com o Lula, uma coisa meio personalista demais, 'ah, o Trump é meu amigo'. O Trump não é amigo dele, o Trump é presidente dos Estados Unidos. É antiestratégico e perigoso para o presidente esse tipo de medida.

BBC News Brasil - E o Carlos Bolsonaro?

Bebianno - O Carlos mantém uma influência mais à distância, quer dizer, próxima, mas velada. Ele gosta de fazer as coisas nos bastidores e o Flávio atravessa esse problema aí, de empregar parente, (de problemas na contratação no gabinete como deputado no Rio) e isso é muito ruim porque nada mais é do que a velha política.

BBC News Brasil - Você não sabia dessas suspeitas de contratação de parentes durante a campanha?

Bebianno - Não, não tinha conhecimento.

 

BBC News Brasil - Você se arrepende de ter se empenhado no projeto Bolsonaro?

Bebianno - Eu acho que cada momento é um momento. O momento ali era de se buscar uma interrupção da sequência de governos petistas. Se o PT ganhasse ali com o (Fernando) Haddad seria o quinto mandato. Eu acho que o PT representa ideias atrasadas que empobrecem o Brasil, era um momento de ruptura ali e o objetivo foi alcançado.

O que eu não esperava foi o comportamento posterior do presidente, logo após a eleição. O comportamento dele mudou, ele virou outra pessoa, irreconhecível. Antes ele passava uma posição muito humilde, escutava as orientações que passávamos pra ele, nunca foi muito de mergulhar nos assuntos. Ele tem uma característica de tratar de forma superficial as coisas, mas ele delegava e deixava a gente trabalhar, e sempre defendendo a bandeira de moralidade e tudo mais.

Com a chegada do Paulo Guedes, que eu trabalhei muito para manter, as desavenças ali da pré-campanha e da campanha, principalmente por conta da reforma da Previdência... porque o presidente não acreditava na reforma da Previdência, ele era contra, e nós trabalhávamos muito no sentido de convencê-lo da importância daquilo, ele achava que era balela.

O Paulo Guedes chegou a ter estremecimentos com ele ao longo da campanha e isso me preocupava sobremaneira, porque eu tinha consciência de que se o Paulo Guedes saísse do projeto ele não seria eleito. Então, eu acreditava que depois de eleito ele fosse adotar uma postura mais séria, mais calma, ponderada. Só que ele puxou pra perto de si uma entourage muito ruim, que o acompanhou durante alguns anos, pessoas muito incultas e agressivas, um nível muito aquém do que precisa um presidente da República.

BBC News Brasil - Quem são essas pessoas?

Bebianno - Não vou mencionar nomes, mas essa entourage permanece ao lado dele, sem opinião própria. Uma das coisas que ele fez foi afastar as pessoas que têm opinião própria em benefício dele, como o general Santos Cruz, que era seríssimo e fidelíssimo, sempre foi leal, uma pessoa correta. O presidente hoje é cercado por pessoas que não ousam dar suas verdadeiras opiniões.

 

BBC News Brasil - Como surgiu a ascendência do Olavo de Carvalho sobre o Bolsonaro?

Bebianno - Não, isso nunca existiu. O Olavo nunca participou de nada (na campanha). Eu me lembro que ele era inclusive muito reticente ao nome do Jair lá atrás. O nome dele passou a ser corrente depois de a eleição ganha, então, o que acontece é isso, (é a) isso que o presidente está cego.

Enquanto a eleição dele era um risco - e eu estou muito à cavaleiro para falar, porque eu não fui candidato a absolutamente nada, não indiquei um só candidato, não indiquei ninguém pro ministérios, então meu trabalho foi de pura doação - o que eu observo é isso, várias pessoas, puxa-sacos, que não fizeram nada ou fizeram muito pouco ao longo da campanha, tomaram conta ali e hoje o presidente é cercado por essas pessoas.

O rei não tem quem lhe avise que ele está quase nu. Acho muito ruim para o presidente, ele não está lá para roubar, não é um objetivo dele, mas deixou-se seduzir pelo poder, tanto assim que a promessa de campanha de não buscar a reeleição... ele já antecipou a campanha pra 2022. Acho muito ruim essa coisa familiar, acho legítimo que os filhos dele disputem eleições e ganhem seus mandatos, é legítimo e faz parte da democracia, mas a partir do momento que ele começa a favorecer e indicar, sabendo que a pessoa não está preparada, acho muito ruim, brincar de embaixador acho muito perigoso.

BBC News Brasil - Como ficou sua situação no PSL?

Bebianno - Me desliguei do PSL, renunciei ao cargo de vice-presidente e me desfiliei, não tenho vínculo nenhum com o PSL.

BBC News Brasil - Já o convidaram a se filiar a outra legenda?

Bebianno - Tenho convites mas não defini ainda, eu prefiro não mencionar quem me convidou, há conversas em curso mas eu tenho muito cuidado porque eu tinha abraçado com muita veemência a bandeira para a última eleição.

Não me sinto hoje confortável pra me vincular a ninguém. Então, converso com todo mundo, me dou bem com todo mundo, isso era parte do meu trabalho também, pavimentar os caminhos para o presidente poder fazer as caminhadas que ele precisasse fazer de forma tranquila. Mas me parece que a estratégia é, antes de cruzar a estrada, passar um helicóptero jogando bomba, parece que eles preferem caminhos esburacados.

BBC News Brasil - Há uma parte da direita, como o MBL, fazendo autocrítica, dizendo que destampou aí uma caixa de pandora, que levou a uma radicalização, que está quase implodindo as pontes todas...

Bebianno - Na verdade, o MBL nunca participou de campanha pro Jair, e diga-se de passagem, não o fez por culpa dos filhos, porque o Eduardo e o Carlos sempre hostilizaram os garotos do MBL, sempre. Eles só defendem o nome do pai, qualquer um que não seja bolsonarista eles atacam, independentemente da convicção ideológica. Então, os meninos do MBL têm luz própria, cada um tem seu caminho, eles nunca idolatram o Jair, nunca foram 'bolsominions', então só por esse aspecto eles são muito hostilizados pelo Eduardo e pelo Carlos. Pelo Flávio, menos. Mas pelo Eduardo e pelo Carlos, sempre foram muito hostilizados.

Isso sempre me causou perplexidade. Deveria haver muito mais conversa (entre os grupos da direita), você tem lideranças importantes como o Flávio Rocha, o próprio (João) Doria, todos se afastando. Ninguém mais quer muita conversa (com Bolsonaro), por conta de posições muito radicais. Então, era um erro o Brasil do PT e acho que hoje a gente começa a ver um erro do Brasil bolsonarista, ou exclusivamente bolsonarista.

Eu acho que entre o branco e o preto tem uma quantidade enorme de cores. Tudo que é muito radical é ruim. Até voltando à sua questão do arrependimento, cada dia a gente vive um determinado problema. O problema de ontem era o projeto de poder eterno do PT, e a forma ideológica como o PT tomava decisões de Estado. O problema de hoje é o radicalismo, decisões de Estado tomadas por outra ideologia.

Uma das promessas de campanha era que decisões técnicas fossem técnicas, sem viés ideológico. Se não tomarmos cuidado, vamos cair pro outro extremo que também não é bom. O Brasil é um país muito diversificado, ecumênico, que sempre abraçou diferentes culturas, de forma harmônica e tolerante. Me preocupa o excesso de radicalismo, o falso moralismo, o clima beligerante.

BBC News Brasil - Esse tom radical e beligerante já não estava claro pra você durante a campanha?

Bebianno - Não, pra mim o que havia de beligerante era uma beligerância normal de campanha. Campanha é campanha. Governar é outra coisa. A partir do momento que você é eleito, você tem que governar pra todos, inclusive para aqueles que não votaram em você. É o momento de você mostrar o quão você é bom, e conquistar uma parcela maior do eleitorado. Acho que o presidente se equivoca ao estar focado no percentual minoritário de eleitores que o apoiam incondicionalmente.

 

BBC News Brasil - Você acha que o general Mourão, vice-presidente, age em benefício próprio?

Bebianno - Não, isso é absolutamente injusto. Da mesma forma que outras tantas pessoas foram atacadas injustamente, eu acho que o general Mourão é vítima de um ataque covarde, desmedido e desnecessário. Ele está cumprindo o papel dele, é o de estar preparado para assumir se preciso for. Mas ele nunca fez nada que pudesse comprometer ou enfraquecer o governo do presidente.

BBC News Brasil - Como avalia o papel do (presidente da Câmara) Rodrigo Maia? Há um parlamentarismo branco no Brasil?

Bebianno - Conheci o Rodrigo no primeiro turno ainda e de lá pra cá, só foi se fortalecendo uma excelente impressão que eu tenho dele. Na política, o que vale é a palavra e ele tem palavra. A partir do momento que estabelece um compromisso, ele cumpre. E a pauta econômica de modernização do Brasil é uma pauta em que ele acredita, muito mais do que o presidente. Essa é a pauta do Rodrigo.

A conversa entre nós sempre foi muito fácil porque essa também é minha pauta. Eu tenho uma visão liberal, sob o ponto de vista econômico. Sob o ponto de vista de costumes também, eu não sou um ultraconservador. Então, sempre a conversa foi fácil entre mim, o Rodrigo, o próprio Paulo Guedes porque o objetivo era comum.

Eu só tenho a elogiar o Rodrigo pela serenidade com que ele conduz os trabalhos (na Câmara), pela seriedade e por colocar o Brasil em primeiro plano, ele não se deixou levar pelas provocações pessoais, nada disso, ele vem exercendo muito bem o seu papel.

BBC News Brasil - Você falou em direita liberal. Acha que há espaço pra que surja uma direita liberal em costumes e economia? O Bolsonaro não é liberal nos costumes e também nem tanto na economia, já que não era a favor da reforma da Previdência.

Bebianno - Nos costumes ele é conservador no discurso, porque se olhar a vida dele, ele não tem comportamento conservador, basta olhar quantos casamentos teve e por aí vai. Esse conservadorismo todo é muito mais no discurso do que na prática. Acho que há espaço para um posicionamento de centro-direita. E quando falo em direita, estou falando de direita avançada, liberal do ponto de vista econômico.

E conservador eu falo no sentido filosófico, no sentido do cético, que não acredita em gênios, em mitos e salvadores da pátria. Os céticos acreditam na evolução humana por si só. A sociedade evolui com seus erros e acertos. Sempre que aparece alguém como um salvador da pátria, a história mostra que o final nunca é bom, sempre acaba em uma coisa meio autoritária.

BBC News Brasil - É engraçado você falar isso porque Bolsonaro foi eleito sendo chamado de mito.

Bebianno - Isso aconteceu ao longo da pré-campanha, essa coisa de mito, mito. Foi uma coisa espontânea, orgânica, não foi criado. Veio das redes sociais. Esse negócio colou nele e foi até o fim. De novo, acho que serviu para que fosse rompido o ciclo petista. A partir da eleição, a coisa tinha que ganhar uma outra sobriedade.

BBC News Brasil - Se fosse hoje, você voltaria a apoiar o Jair Bolsonaro?

Bebianno - Eu acho que naquela época não tinha outro nome. Os nomes que apareceram não tinham empatia com o eleitorado, o único nome com chances de êxito era o do Jair. As coisas têm que ser analisadas de acordo com o momento. Se você falar de eleições futuras, com o PT enfraquecido e tudo mais, a tendência é que venha um outro nome, um nome com pensamento moderno, liberal. Tem o Luciano Huck, às vezes acena que vem, tem o próprio João Doria, tem outros nomes.

BBC News Brasil - O Rodrigo Maia?

Bebianno - O próprio Rodrigo Maia talvez, por que não? Eu acho que ele se habilita cada dia mais. Outro aspecto ruim que eu queria mencionar, numa determinada discussão, uma vez, ainda na fase de transição no CCBB (sede do escritório da equipe de transição em Brasília), o Carlos Bolsonaro estava pressionando muito o pai pra transferir a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém.

E aí no meio dessa conversa nós começamos a explicar pro Carlos que não era bem assim, que isso teria implicações graves, e o Carlos inconformado e muito radical. E o general (Augusto) Heleno participou dessa conversa e tudo, e eu me lembro de dizer ao Carlos: 'Carlos, o que você pretende? Você gostaria de ver bombas explodindo nos metrôs do Rio de Janeiro, de São Paulo?'.

Então, essa posição tão radical que o presidente e a família adotam, ela é perigosa até desse ponto de vista. O Brasil pode atrair para si atentados terroristas, que nunca houve aqui. Esse tipo de postura realmente me preocupa.

 

BBC News Brasil - Quando você perguntou isso ao Carlos, o que ele respondeu?

Bebianno - Com muxoxos, ali, desistiu. Ele não tem argumentos. O general Heleno concordou ali comigo, foi enfático em dizer o tipo de problema que isso poderia trazer, já que o Brasil sempre teve uma postura muito pacífica e muito neutra, graças ao Itamaraty. Isso pode resultar num preço pra população brasileira que a população nem enxerga. O governo precisa ter responsabilidade e serenidade para não atrair mais esse problema pra cá.

BBC News Brasil - Em relação à questão do desmatamento, que tem gerado muitas críticas, inclusive internacionais, o que acha?

Bebianno - Sob o ponto de vista político, existe um consenso mundial no sentido de que a ação humana interfere na questão das mudanças climáticas e por causa disso algumas medidas devem ser tomadas. Então, se o Brasil pretende se relacionar e estabelecer um forte comércio com outros países, não pode se chocar contra esse consenso.

Isso dará margem a uma série de sanções que vão prejudicar o Brasil sob o ponto de vista econômico. Exige uma estratégia inteligente pra ir lidando com essa questão, de modo que radicalismos e soco na mesa não vão funcionar. Se o presidente tivesse uma fala mais moderada, ele poderia defender seus pontos de vista sem puxar para si uma visão tão antipatizada. Se continuar nesse caminho, as sanções serão postas.

BBC News Brasil - A facada que o presidente tomou teve importância no aumento de participação dos filhos na campanha e no governo?

Bebianno - A facada gerou uma fragilidade emocional muito grande no presidente. E durante a internação hospitalar o Flávio e o Eduardo foram muito pouco ao hospital, quem ficou lá o tempo todo foi o Carlos. Então, não concordo com as ideias do Carlos, como todo mundo sabe, nosso relacionamento não é bom, mas ele teve um papel importante, foi o familiar que ficou mais próximo.

Evidentemente isso teve um peso, gerou uma dependência emocional grande, um vínculo. Só que o Carlos tem ideias totalmente equivocadas, ele não tem raciocínio com início, meio e fim, ele tem uma certa dificuldade cognitiva. É complicado isso porque o pai passou a ouvi-lo de uma maneira demasiada.

BBC News Brasil - Vocês começaram a se estranhar ainda no hospital?

Bebianno - Eu não me estranho com ninguém, ele que se estranhou comigo. Ele já tinha demonstrado antes, ele tem um processo meio bipolar, ora ele abraça e demonstra afeto, no minuto seguinte já demonstra raiva, sem que você consiga compreender como esse processo se dá na cabeça dele. É muito difícil a relação.

Ele não assume responsabilidades. Ele poderia ter assumido o partido, eu só assumi porque não tinha outra pessoa para fazer. Então, eu era uma espécie de 'faz tudo' ali porque ninguém quis assumir a responsabilidade dentro do partido, por exemplo. Agora, por exemplo, por que ele não disputa a Prefeitura do Rio de Janeiro? Deveria disputar. Deveria ter assumido a Secom, já que ele manobra tanto a Secom nos bastidores, por que não assume de frente? Não acho que ele tenha coragem de disputar esse tipo de mandato.

BBC News Brasil - Você voltou a falar com o presidente depois da demissão?

Bebianno - Não, não nos falamos mais.

BBC News Brasil - Na convenção que lançou Bolsonaro à Presidência, você chegou a dizer que era apaixonado por ele, 'de um jeito hétero'. Qual o seu sentimento hoje?

Bebianno - Ele é muito carismático. Aquele Jair que eu considerava meu amigo e por quem eu tinha uma grande admiração, aquele Jair morreu, não existe mais. Esse Jair que está aí é outra pessoa, que eu desconheço. Aquele com quem convivi dois anos de perto, aquele eu guardo no coração. É sempre doloroso e ruim, mas passou, vou olhar pra frente, desejo sorte a ele porque o Brasil precisa andar pra frente.

 

Com informção da BBC News Brasil (Agência Britânica de Notícias)