Por dívida 'impagável', Lula pediu perdão ao povo africano e mudou a relação do Brasil com a África

15/05/2018

Vanilda Oliveira

Ricardo Stuckert/IL Por dívida 'impagável', Lula pediu perdão ao povo africano e mudou a relação do Brasil com a África

Para cada dez anos da História do Brasil, sete foram escritos sob o regime da escravidão, um tempo marcado a ferro quente nos corpos de africanos submetidos a raptos, trabalhos forçados, açoites, estupros, exploração. Horrores de uma guerra de lado único, que fez o País acumular uma dívida impagável com o Continente africano. De lá, entre 4 milhões e 5,5 milhões (falta consenso entre historiadores e pesquisaores sobre esse número) de homens e mulheres foram arrancados e trazidos à força para se tornar fundamentais à riqueza e economia da maior colônia portuguesa. Um holocausto muito conhecido e mais ainda ignorado por omissão e conveniência histórica.

 

Foi preciso o Brasil eleger e reeleger um operário e homem do povo à Presidência da República para ver amortizada parte dessa dívida com os africanos aqui escravizados. Nos seus oito anos de mandatos, Luiz Inácio Lula da Silva revirou o baú da história, marcada por distância e descaso com a África, para fazer um realinhamento estratégico na política externa com prioridade para os países africanos.

 

"Temos um débito de solidariedade com a África. É uma dívida impagável", disse e repetiu Lula durante as suas 12 viagens oficiais à Região, algo que nenhum outro presidente fez. Na quarta visita presidencial da série, ao Senegal, de onde partiam os navios negreiros, Lula sou o discursou para pedir perdão ao povo africano pela escravidão no Brasil.

 

Somente nos navios negreiros, estima-se que 660 mil africanos, a maior parte crianças, tenham morrido em condições desumanas, segundo pesquisas e dados publicados no site Slave Voyages www.slavevoyages.org (em inglês, viagens escravas). O portal tem catalogadas 35 mil viagens e registros de três séculos e meio de tráfico de negros africanos, a maioria para o Brasil. Revela ainda que houve um fluxo de 10,7 milhões de escravizados em todo o mundo

 

Em 2 de novembro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva começou a "colocar luz" nessa história, com sua primeira visita presidencial à África. Ao longo de uma semana, a comitiva esteve nas capitais de São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, África do Sul e Namíbia.

 

Fez muito e mais: os governos petistas de Lula e Dilma abriram metade das 39 embaixadas na África (que tem 54 países) e firmaram mais de 600 projetos de transferência de conhecimento e tecnologia em 43 nações africanas. Em 2002, eram 21 ações em seis países.

 

De 2003 a 2012, o comércio exterior com a África saltou de US$ 6 bilhões para US$ 26,5 bilhões, segundo dados do Instituto Lula. A participação do continente na balança comercial, apesar de tímida, saiu da estagnação e passou de 5,1%, em 2003, para 5,7%, em 2012. Na Era Lula, pelo menos 500 empresas nacionais se instalaram em países africanos. O Banco do Brasil e o BNDES destinaram mais de US$ 4 bilhões em créditos de exportação.

 

Nem é possível elencar aqui as ações afirmativas, sem precedentes, dos governos Lula e Dilma para promover a igualdade racial. Honraram o compromisso histórico assumido por Lula com países africanos, em acordo com a atuação efetiva do movimento negro. Destaque para criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR-PR), em 2003, hoje um Pasta desconstruída pelo governo golpista de Michel Temer.

 

Mesmo depois de deixar o governo, o ex-presidente seguiu sua relação de parceria e cooperação com os países africanos por meio de ações saídas de agendas do Instituto Lula. Um trabalho sem precedentes no Brasil, agora interrompido e até esvaziado pelo bloqueio de bens que sufoca o Instituto Lula e a prisão, sem crime nem provas, do mais popular líder político que o Brasil já teve.

 

Lula precisa ser libertado e eleito pela terceira vez para dar continuidade ao pagamento de uma dívida de solidariedade com o povo africano. Ele foi o único presidente do Brasil a admitir tal débito.

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(escrito por Vanilda Oliveira e também publicado no portal da CUT